Violência Política e Social

 
Guilhotina da Revolução Francesa


Resumo
   Uma breve análise sobre como a esquerda digital, e consequentemente física, tem entrado em decadência ao se aproximar dos extremos e abraçar posições violentas e excludentes ao invés de criar diálogo entre todos a sua volta. Se referindo a esquerda não como um todo, mas apenas parte extrema e infundada que reina nas caixinhas políticas digitais, também conhecidas como redes sociais.

Bipolarização
   Desde que a humanidade se conhece como racional, a existência de divergências políticas é inegável. Inúmeras opiniões sobre inúmeros assuntos emergiam conforme a sociedade tomava seu formato. Como de costume na nossa sociedade, houve uma bipolarização de um espectro político gigantesco em apenas dois lados, esquerda e direita. Suas origens vieram da revolução francesa, em que os simpatizantes da revolta sentavam-se ao lado esquerdo e os partidários do rei sentavam-se à direita.
   A política sempre foi motivo de discussão, mas também era composta de argumentação, que tinha como objetivo convencer um ao outro de qual ideia era mais adequada, assim como toda discussão. Nos tempos atuais, mais especificamente os movimentos políticos da internet, simplesmente abandonaram o lado da argumentação e da conversa com o intuito de convencer o adversário político¹. O foco desse texto será mais uma crítica ao movimento em que me identifico, que é a esquerda.

Bipolarização interna
   Como parte de nós já sabe, todo movimento, seja opressor ou oprimido, também possui uma configuração de opressor-oprimido. Como por exemplo, RuPaul Andre Charles, mais conhecido como RuPaul, é um ator, drag queen, modelo, autor, cantor americano, gay e negro. Em um momento em sua presença digital, na plataforma do Twitter, ele desabafa "Eu fui evitado por brancos por ser negro, por negros por ser gay, e por gays por ser afeminado". O desabafo mostra a denuncia de como todos os movimentos e Minorias Políticas² nas quais ele faz parte, oprimem ele de forma interna, como se já não bastasse a opressão externa de homens, brancos e conservadores, basicamente toda a sociedade no poder.

Agressividade Exclusiva
   Dentro da esquerda acontece o mesmo fenômeno presente em todos os outros movimentos. Parte da esquerda - foco no fato de que é uma crítica para um grupo específico apenas - funciona com uma configuração agressiva e violenta, e que, visualmente não tem nenhum objetivo de convencer outros de fora a aderir sua causa. Como vimos anteriormente, discussões políticas tinham como objetivo convencer o outro a adotar ou ceder aos seus ideais apresentados. Nas plataformas da internet é fácil encontrar pessoas que se atacam de forma violenta e sem fundamento devido divergência política. Facilmente conseguimos encontrar casos diversos de pessoas que fazem parte do grupo LGBT+ e são atacadas por terem pensamento político de direita. Nos últimos dias eu observei dois tweets sobre isso; uma pessoa dizendo que foi excluída do próprio grupo LGBT+ com ameaças e ofensas (Tweet Aqui) e um outro tweet de um casal LGBT que declara apoio ao Bolsonaro e inúmeros relatos o seguem (Tweet Aqui). Podemos perceber que a maioria esmagadora é a direita apoiando o casal em questão. O que tem acontecido ao meu ver, é uma direita que ataca a maioria na prática, mas vende um discurso amigável e inclusivo (para quem está indeciso) e uma esquerda que possui uma prática inclusiva mas tem proliferado um discurso agressivo e exclusivo contra a direita, os indecisos e até os próprios integrantes do movimento. Independente do conteúdo dos tweets serem verdadeiros ou não, uma coisa é fácil de observar; a direita ataca brutalmente e estupidamente a esquerda, mas apenas a esquerda. Uma prática assim, por mais que não planejada, de vender bem o discurso pros internos do movimento e pros indecisos, claramente aumenta a adesão e o tamanho do grupo e do movimento, por mais que seja regado de FakeNews³. Enquanto a direita cativa parte da população e dá orgulho e glória aos que participam dela, a esquerda faz o processo oposto. Ataques internos do movimento da esquerda são comuns, principalmente na internet. É triste ver uma desunião gigante dentro de um movimento em que faço parte.

Ciclo de Ódio
   Todo lado político tem extremos, independente de qual seja. Na direita conseguimos encontrar lunáticos na internet que xingam todos sem sequer conversar como o cantor Lobão, que já me xingou e ofendeu no Twitter tempos atrás sem nem ser mencionado. Do outro lado, na esquerda, temos o Flesch, que ganhou destaque por anunciar shows no Brasil antecipadamente. O comportamento dele é similar ao de Lobão, ele ataca 'coxinhas' e 'amebas' como gosta de chamar. Independente de quem começou a discussão, o importante é que o ódio é recíproco e idêntico. Sejamos sinceros, é triste ver similaridades entre o opressor e o oprimido assim como é triste ver entre a esquerda e a direita.
   A esquerda extrema digital nas redes sociais tem uma vasta lista de regras morais e sociais para se cumprir, mesmo que não estejam escritas em lugar algum, estão lá. Como sabemos que estão lá? Cobranças. Cobram tudo perfeito de você e se você não cumprir, te atacam raivosamente e te excluem. Esse sistema não tem apenas a temática de cobrarem de você. Para você se encaixar socialmente e moralmente no movimento, você precisa cobrar também. Inúmeras vezes a pessoa provavelmente reproduziu um comportamento e uma cobrança sem sequer parar pra pensar e refletir profundamente se é isso que ela concorda. Todos te vigiam e você vigia todos. Você tem medo, da mesma forma que todos os outros tem. Uma esquemática parecida com um governo autoritário. Qualquer pessoa que leu o livro '1984' consegue fazer comparações claras nessa sistemática. Todos se vigiam e se delatam caso algo suspeito aconteça. Nada é resolvido na base do diálogo e sim do ódio. No livro tem cenas em que todos os cidadãos vão para uma sala de cinema e ficam passando imagens e notícias de uma pessoa para ser odiada. Esse ritual se chama 'três minutos de ódio' segundo o livro. Na história, o odiado é um personagem específico, no qual todos os problemas da sociedade são colocados em cima e culpabiliza-o. Na vida real, essa pessoa muda e a internet e o movimento funciona como um enforcamento em praça pública, com uma fila infinita em que todos assistem mas o próximo pode ser você. Você pode ser enforcado por não comemorar o ritual e inclusive por não acusar o próximo. Não se resume nem em um tribunal moral, o mais próximo de definir esse sistema seria um circo de ódio.

Banalização do Ódio
   Ao parar e analisar com calma a funcionalidade na rotina das pessoas desses 'três minutos de ódio', é um ritual muito claro e banalizado. Uma pessoa começa a contar sobre seu dia na internet, sobre assuntos rotineiros como ir à escola, relações familiares ou até aquele seriado que ela gosta. No meio de tudo isso vem um comentário sobre uma notícia que ninguém sabe se é verdade realmente; "que ódio, espero que morra", "mereceu", "tinha que matar na porrada", e logo depois voltam as histórias sobre o dia como se nada tivesse acontecido "hahaha meu gato pulou em mim". Ao destacar comentários assim soltos, parece até que são ataques da direita, mas pasme em saber que ambos se comportam assim e que a esquerda também tem esse discurso perdido dentro do movimento. O que nos trás claramente para uma contradição em que é um viés político contra execução, pena de morte dentre outros e mesmo assim prega ódio ao dizer que tais pessoas deveriam morrer, que mereceram tomar uma facada, que um tiro foi pouco e se igualando aos piores comportamentos políticos e sociais na internet. É um fato difícil de digerir, mas a esquerda comemora morte de pessoas da mesma forma que a direita.
   Assuntos como apropriação cultural, machismo, homofobia,  racismo, local de fala, propriedade e vivência são os assuntos que geralmente são usados na vigia moral. Relembrando que criticas assim são voltadas para partes pequenas e digitais do movimento. Falando em outras palavras podemos resumir na 'Cultura da Lacração' . Quando ocorre uma confusão na internet, todos se juntam ao lado com seu saco de pipocas pra assistir e escolhem o seu lado, seja com uma curtida, um Retweet, um compartilhamento ou até um comentário se intrometendo. As palmas não vão para quem está argumentando e sim para quem está ofendendo o outro. Da mesma forma que a esquerda possui essa cultura, a direita também, que se aproxima nominalmente mais da 'trollagem' ⁵. Independente do lado, é uma faca de dois gumes, um ciclo interminável e apenas uma discussão no espelho. Propagar esse comportamento e concordar é errôneo e inviável. Nunca que um discurso de ódio vai ser solucionado por outro discurso de ódio, não sei quem achou que um dia isso funcionaria. Apesar de que o ciclo só pode ser quebrado se ambos os lados se libertarem em comunhão, mas isso já entra no discurso de Paulo Freire (que se encaixa perfeitamente nos tempos atuais).
   Eu me lembro que em meados de 2014 eu participei de uma discussão sobre o golpe na Dilma e a PEC do congelamento de gastos. Foi uma ótima discussão, conversamos, apresentamos argumentos, fontes e etc. No final das contas não concordamos e a discussão terminou, ninguém xingou ninguém e seguimos nossas vidas com pensamentos conflitantes. Isso se tornou algo tão raro na internet que vieram pessoas de fora da discussão pra elogiar a argumentação pacífica. É claro que uma argumentação depende de dois lados e que se um for agressivo, não tem como continuar. Mas se ambos forem agressivos, tudo fica mil vezes pior porque não se tem sequer uma abertura pra troca de informação. Nunca na história vai ser correto se igualar ao lado do errado, não faz o mínimo sentido.

Hipocrisia de Discurso
   Um movimento que dá ênfase de que ninguém é perfeito e totalmente desconstruído e que isso é um processo gradual e demorado ter paralelamente o comportamento de excluir, atacar e ofender qualquer pessoa que erre uma vez sequer, não faz sentido. Um movimento que acredita na ressocialização e no aprendizado, ter um comportamento de excluir e manter excluído por não acreditar que as pessoas aprendem com os erros, não faz sentido. Não é uma surpresa esse comportamento, visto que não existem esforços para criar diálogo para convencer o indivíduo a melhorar e aderir ao movimento, ou até reciclar-se dentro do movimento. Todo esse comportamento hipócrita só é possível de se ver se você foi vítima de um desses caça às bruxas ou se você está vendo a situação de fora em um contexto político e moral. Um movimento político formal fundamentado sendo invalidado por um movimento político informal com apenas agressões.
   Tempos atrás houve um escândalo (provavelmente vários) com o Kanye West. Não consegui encontrar o artigo em questão, mas ele falava sobre como o público colocava as pessoas em um pedestal e depois crucificavam ela por algum erro cometido. O erro em questão foi apoiar o Donald Trump, mas o foco é que são extremos que não devem ser exercidos. Ninguém deve ser tratado como monstro não-humano, muito menos ser colocado em um pedestal angelical. Isso acontece frequentemente com todas as figuras públicas no mundo. São todas separadas em duas categorias, boas ou ruins. Esse costume vem do comportamento já citado anteriormente em que a sociedade tem um vício coletivo de bipolarizar os conceitos; ou uma pessoa é muito boazinha ou é muito malvada, não existe o meio termo humano.
   Apesar de toda essa ênfase em que esse comportamento é um movimento informal e digital, a voz do povo é a voz de Deus. Candidatos tem focado mais em presenças digitais do que pessoais, tem se preocupado em apontar os erros do outro candidato mais do que apresentar as próprias propostas e candidatos à presidência em que os eleitores analisam mais o seu perfil nas redes sociais do que as suas propostas no papel. Os movimentos informais tem tomado espaço e força e consequentemente os formais tem aderido à seus comportamentos morais e sociais para conseguir cativar sua atenção. Basicamente aquele tio de 50 anos com boné pra trás, óculos escuros, skate nas costas e perguntando 'e aí crianças, qual a boa?'. Os gigantes da política já entenderam que a internet virou um circo de ofensas e que é de lá que vai nascer o próximo poder. Quem manda na internet, manda no resto. Da mesma forma que era na geração passada a televisão (ambas estão em vigor no momento). A própria internet que sempre criticou os instrumentos de manipulação, se tornou um por si só. Todos dentro de uma caixinha, que está dentro de outra caixinha, de outra e de outra, infinitamente.









¹ Não é uma expressão que eu uso de forma confortável, visto que dá forças a ideia de que esquerda e direita são inimigas e completamente binárias e opostas. Entendo que sejam pensamentos diferentes, mas essa diferença existe mesmo dentro da própria esquerda ou direita. Dentro da direita vão ter os mais tendenciosos para a Direita Central e outros para a Direita Extrema, assim como dentro da Direita Extrema haverá os mais extremos ainda e os menos extremos. O mesmo ocorre com a esquerda.
² Minoria Política é uma expressão que vale a pena ressaltar algumas partes específicas. Quando falamos minoria, temos a impressão matemática de que está em menor número, mas isso é incorreto. Ao chamar os trabalhadores de minoria, existe uma contradição ao perceber que eles formam a maior parte da sociedade. Apesar de estarem em maioria numérica, estão em minoria política, ou seja, com menos poder. Usar o termo correto é importante para não limitar mentalmente aqueles que fazem parte do grupo ao achar que estão em menor número e potencialmente suprimir uma vontade de justiça e revolução.
³ FakeNews é um termo em inglês usado para se referir à notícias falsas, e majoritariamente criadas com intuito de enganar o público, e não por erro jornalístico.
Cultura da Lacração é um nome criado como crítica a um valor informal, porém claro, que ofender a pessoa e fazer ela se sentir humilhada em caso de discussão, vale mais atenção e glória do que uma pessoa que ouviu argumentos e mudou de ideia.
Trollagem é um termo inglês originado da palavra 'Troll' que significa; ogro, trasgo, gigante, duende e etc. Geralmente criaturas mitológicas que prejudicam as outras por diversão apenas. Foi adaptado para se adaptar a pessoas na internet que gostam de sacanear as outras ou simplesmente ofender sem motivo algum. Geralmente associada à direita.

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