Pequeno Frank
Eu sempre morei em cidade pequena. Aquela cidade que na real nem é pequena, mas todo mundo se conhece e se esbarra em todos os cantos. Um ovo de codorna urbanizado. Isso nunca foi um problema até 'A Briga'.
Sempre me senti muito querido e, por ser sociável, conhecia quase todo mundo! Quando conhecia alguém que morava por ali e não conhecia, era um grande evento para se rir e comentar “meu deus! como assim?!” e soltar uma bela gargalhada. Todos eram amigos, ou conhecidos ou minimamente amigos do amigo de alguém.
O fatídico dia foi quando o vendedor de óculos da pequena cidade se zangou comigo. Foi alguma coisa sobre ciúmes, se me recordo bem. Eu era amigo de alguém que essa pessoa gostava. Não imaginei que ser amigável iria de alguma forma me trazer inimigos. Inclusive esse sempre foi o objetivo. Paz.
Após nossa briga, o vendedor começou a distribuir gratuitamente alguns óculos para a cidade inteira. Ah, mas era um tipo de óculos lindo, com lentes verdes e de armação prateada. Eu estranhei demais essa reação, mas acabei aceitando também. No primeiro dia que fui usar, percebi que, além de esverdeado, não havia nada de diferente… até que cheguei em casa. Me deparei com uma criatura horrorosa de dois metros de altura e pele apodrecida. Não dava para sentir o cheiro, mas só de ver aquela carne, já dava para imaginar o fedor e ouvir as moscas sobrevoando. O cheiro era da minha cabeça e o som das moscas também. Apenas a visão enganando os outros sentidos. Após alguns segundos encarando a criatura, percebi que estava em frente ao espelho, e que a criatura era eu mesmo.
Após alguns minutos movendo os braços frente ao espelho para ter certeza que era realmente eu e não um ser preso no espelho, decidi ir para a rua pedir ajuda aos meus queridos amigos da cidade. Ao descer na rua, notei que muitas pessoas já estavam com os óculos novos, diferente de algumas horas antes. Havia triplicado o número de pessoas com os óculos mágicos. Então desesperadamente corri e comecei a avisar que isso nos transforma em monstros! … Após meus esforços, não consegui acreditar no que via. Todos estavam correndo de mim, achando que eu era o monstro. Não entendi o por quê de eles não se transformarem em monstros também.
Acabei decidindo tirar o óculos e notei que não era mais um monstro. Percebi que eu só me via como monstro no espelho e que na verdade só tinha corrido de mim quem estava usando o negócio na cara. É isso! O óculos me transformava em um monstro pela visão dos outros. Não importa o que eu era e sim o que eles achavam que eu era.
Em poucos dias todos da cidade já usavam os óculos e eu não conseguia sequer comprar um pastel na feira sem causar olhares de nojo e comentários rudes. Não se preocupavam nem em disfarçar, apontavam os dedos na minha cara e falavam coisas altas, justamente para eu ouvir.
Com isso, fui obrigado a pedir para meus amigos mais próximos me ajudarem. Eles compravam jornal, pão e sorvete de limão na esquina para mim. Obviamente eles não usavam os óculos e por isso continuavam me vendo como eu realmente era. Eles me diziam “Frank, nós temos que avisar as pessoas que o óculos está quebrado! Que você não é um monstro” Porém, como eu já estava ficando especialista com histeria de cidade pequena, não permiti. “Assim que vocês tentarem me defender, vão virar monstros aos olhos deles também. Vocês serão tão perseguidos como eu. Talvez até pior ainda, por terem saído do lado dos humanos e criado amizade com um monstro”.
O tempo passou e fui me isolando cada vez mais. Não fui mais no parque para ver o pôr do sol, pois última vez que isso aconteceu tive que correr de 20 pessoas com tochas e gravetos. Queriam fazer um churrasquinho de Frank, uma carne podre e sem valor no mercado. Começaram a atacar e ameaçar meus amigos também, os acusando de alimentar o monstro. Fui expulso de meu prédio e fui viver em uma caverna nas proximidades. Meus amigos começaram a me visitar menos. Não por distanciamento emocional, mas sim físico. Era uma caverna difícil de se chegar. Nunca imaginei que seria ali que iria me encontrar. Me encontro sozinho. Me lembro de olhar para a cidade de cima da minha montanha. Todos pareciam formiguinhas, como se eu estivesse em uma roda gigante. Acho que vivi até hoje para testemunhar esse momento. Espero que o fim espere por mim, da mesma forma que esperei por ele. Abandonei a caverna e não voltei nunca mais
Essa história inteira nunca aconteceu… até de fato ela acontecer.


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