Os Três Medos
Outro dia tomei consciência de que grande parte da minha vida foi uma luta contra um instinto meu. Aquele momento que você tentou matar algo que no final das contas seria imortal. Não que tenha sido em vão, mas que minhas metas sempre foram irreais.
Do que eu estou falando? Agradar os outros. Nossa sociedade, apesar de viver em um mundo de imagens e aparências, dita um discurso que não devemos ligar para o que os outros pensam. Não podemos deixar a opinião dos outros influenciar o nosso pensamento e julgamento. Isso é certo? Eu acho que sim, mas até qual ponto? Sempre ME COBREI não ligar pra opinião dos outros, sempre me obriguei e reprimi meus sentimentos negativos após ouvir uma crítica negativa ou uma sugestão que afetasse meu emocional. Acreditei que era mais evoluído e que a questão da aprovação social era algo totalmente construído e que poderia ser facilmente desconstruído. Existem sim pessoas que se importam em demasia com a opinião dos outros e acabam obedecendo todas as leis da convivência social, moda e tendências. Mas da mesma forma que é negativo em excesso, é impossível reduzir a zero, a não ser que você minta pra si mesmo.
Me crucificar por acabar ficando triste com as respostas dos outros para as minhas ações sempre foi rotina. Eu não posso me incomodar com isso, posso ser melhor que isso. Depois de anos e anos me sentindo mal por me sentir mal, eu aprendi quais eram os 3 medos primitivos do ser humano.
O primeiro medo vem dos nossos ancestrais possivelmente primatas que se locomoviam e se defendiam dos predadores subindo em árvores. O medo de altura? Não, o medo de cair. Quando acordamos no início do sono achando que estamos caindo é um reflexo primitivo desse nosso medo. A parte do cérebro primitiva é a primeira parte a adormecer, por isso o susto é sempre no início do sono.
O segundo medo é o mais conhecido, medo de não conseguir se localizar, não saber onde está e quem está perto de você, se sentir vulnerável e completamente perdido. Medo de escuro. Sozinho, sem auxílio da visão, indefeso e provavelmente pronto para ser atacado por um predador na espreita. Por isso quando éramos mais novos - ou até hoje - tínhamos um medo completamente irracional de escuro. Mesmo estando no conforto de nossa casa, em nosso quarto e em nossa cama, mesmo assim tínhamos a sensação de que a qualquer momento algo com garras e dentes afiados pularia em cima da gente sem piedade.
O terceiro medo é o que mais importa nessa situação. Medo de não ser aprovado, medo de não ter como pedir ajuda a ninguém e muito menos ser protegido. Medo da solidão. Medo de ser abandonado. Como costume, os mamíferos ancestrais andavam em bandos com intuito de se protegerem, se ajudarem e se tornarem mais fortes. Logo, uma necessidade de se encaixar em um sistema justamente para ser protegido pelo todo. Necessidade de agradar e se sentir pertencido. Possuímos essa necessidade de saber o que as outras pessoas acham, se elas aprovam, se fariam igual, justamente por esse instinto primitivo que preserva a nossa capacidade de viver em bandos. Por questões evolutivas, a seleção natural fez com que os mamíferos primatas de bandos sobrevivessem com maior facilidade do que os solitários. Será que minhas amigas gostaram dessa roupa? Será que vão rir dessa piada que eu contar? Será que fulano não vai com a minha cara? Dói imaginar que alguém não gosta de você sem motivo, mesmo com motivo dói. Mas a gente mente pra si, finge que a gente não liga e não faz tanta diferença. O que mais incomoda nessas situações é a força descomunal que fizemos para tentar contrariar os nossos próprios instintos. Eu parei de me cobrar tanto a indiferença frente a aprovação do meio depois que entendi que isso nada mais é do que um instinto evolutivo e um medo quase incontrolável. Ao aceitar que minha mente funciona assim há pelo menos 70 milhões de anos - que é a data que os primeiros primatas surgiram - eu comecei a me cobrar menos e com isso, ser menos triste. Ficar triste por ficar triste não era mais tão comum assim.



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