Solitude


"Solitude é o estado de privacidade de uma pessoa, não significando, propriamente, estado de solidão.
Pode representar o isolamento e a reclusão, voluntários ou impostos, porém não diretamente associados a sofrimento.
Solitude é o isolamento ou reclusão voluntário, quando o indivíduo busca estar em paz consigo mesmo. Diferente da solidão que em sua essência é o estado emocional do indivíduo que deseja ardentemente uma companhia e não a tem. Um indivíduo pode estar cercado de amigos, em meio a um salão de festas muito animado, e ainda assim estar corroído pela solidão.
Em alguns casos, o indivíduo escolhe isso pelas experiências que lhe foram desagradáveis em algum tempo atrás. Sendo então a solitude uma maneira de evitar que o mesmo incidente ocorra novamente."

   Eu sinto como se não fosse próximo de ninguém, como se não confiasse em ninguém, sinto que relações humanas são todas falhas e raramente são proveitosas e perfeitas. Mesmo sabendo que precisamos uns dos outros eu não sei explicar o motivo, não consigo ser natural com ninguém, não consigo me aproximar sem imaginar como ela vai me decepcionar ou como vai me surpreender. Fico calculando friamente todas as possibilidades sempre que alguém se aproxima de mim, o mar de caminhos que aquilo pode tomar e as infinitas consequências. As vezes acho que tentar alcançar as pessoas é inútil, mas mesmo assim eu tento me conectar com alguém que me entenda, mas no final sempre me encontro lidando com a vida sozinho, ninguém oferecendo um ombro para enxugar as lágrimas desnecessárias.
     Sinto que nunca vamos enfrentar o mundo sem ser sozinhos. Dizem que gêmeos tem uma ligação diferente e eu sinto inveja dessa possibilidade de ser você e mais alguém contra o mundo. Todas as sensações de que eu tinha alguém pra me acompanhar nessa jornada acabaram em uma grande ilusão, aliás, o que é a tristeza senão uma  ilusão seguida de uma desilusão?
    São pessoas distantes, que podemos ver o mundo deles mas não podemos ver as suas cabeças, o que se passa ali dentro, não há nada que podemos fazer por eles.
    Sinto isolado do mundo e de todos, que tudo vai contra mim mas não que seja "ah coitado de mim" mas que o mundo é hostil e ele age contra todos, todos são fortemente oprimidos, nunca tivemos uma geração tão triste, tão suprimida sentimentalmente e tão esquecida. Recebemos menos sorrisos, menos abraços, menos beijos, e não estou dizendo coito, pois acredito que dependendo da situação seja apenas uma forma de preencher o vazio existente aqui dentro, coisa que demoramos pra identificar.
   Falam um "oi" pra mim eu logo imagino o que se passa na cabeça dessa pessoa e o que ela espera de mim, quais são as expectativas dela e o que eu poderia fazer para decepciona-la e satisfaze-la, amigos, parentes, namoradas. Engraçado como só consigo ver pureza em laços com animais. Não é a toa que no meio de festa em casa de amigo meu eu sou o primeiro a perguntar "cade o cachorro?" ou o idiota que procura o gato. Eu não sei se sempre encontro um ponto no qual a pessoa vai me decepcionar ao começar a se afastar ou eu que sou uma péssima pessoa pra escolher em quem confiar de verdade, são pouquíssimas pessoas que confio de verdade. As pessoas que confiamos e podemos sempre contar no dia sempre vêm perguntar o que aconteceu, como a gente está e o que tem passado, o porquê dessa cara triste. Mas se você realmente confia de volta nessas pessoas, você desabafa, coloca tudo pra fora, mas sempre tem aquele "aconteceu alguma coisa?" "não foi nada". Geralmente nos privamos de explicar algo a alguém que achamos que não vai entender ou não vai ajudar nada, evitamos ficar repetindo o problema e reformulando a merda na nossa cabeça. Dependendo da maneira que você pensa, você evita transbordar seus sentimentos negativos em cima de uma pessoa que você gosta e se preocupa, logo, tudo fica dentro de ti.

   Minha primeira depressão foi meio que uma decepção em massa com a sociedade seguido de leituras niilistas e depreciativas. Minha atual depressão não escapa muito do tema. Segue o conceito de decepção com as pessoas, mas não todas, e sim todas ao meu redor. E isso inclui a mim.

   Por anos eu me isolei aos poucos, começando com pensamentos leves olhando para os outros de maneira diferente e encarando as coisas de maneira pessimista.
"Eles não me entendem" eu repetia na minha cabeça
"Eles não se entendem, está tudo perdido"

    Cada crise de depressão que eu tinha eu me afastava mais dos meus amigos e mais ainda da humanidade. Eu era o último a perceber isso. É válido ressaltar que eu me afastei da humanidade e não da sociedade. Nunca me senti próximo da sociedade e acredito que eu nunca vá conseguir me sentir bem dentro de uma cultura auto destrutiva. Tudo dentro da sociedade que me conforta é a parte humana dela, a humanidade entrelaçada com a natureza.
   Eu olhava para todos com repulsa, como se eu não pertencesse a eles. Como se eu não fosse humano como eles. Achava que ninguém nunca tinha passado pelas coisas que passei e pensado as coisas que pensei e sentido as coisas que senti. O quanto mais eu me via como diferente e isolado, mais isso se tornava realidade. Falo isso sabendo que vou ser julgado por ser o antissocial, por evitar quase todos.
   Eu tinha chegado a um ponto em que eu preferia ficar sozinho grande parte das vezes, pra não dizer maioria. Eu havia me convencido de que eu era solitário e sempre fui. Desde pequeno eu brincava sozinho sempre, mas não deixava de ter meus momentos brincando com meus amigos na escola. Cada um tem seu próprio equilíbrio entre solidão e companhia. Quando um sobrepõe demais o outro, entramos em colapso. Eu não gosto de ser sozinho, mas eu tinha me tornado bom nisso. Eu escolhia solitude à solidão.
   Embora eu não responda meus amigos sempre que mandam mensagens por falta de vontade, eu gosto deles. Eles gostam de mim? Eu não sei. Inúmeras vezes entro em conflitos internos achando que não tenho amigos de verdade e que todos me acham um merda idiota e que vou sempre acabar no final Sozinho e Babaca™. As vezes eles estão certos, eu sou um merda. Destruo todos em que toco ou toco todos que destruo? Acho que não faz muita diferença no final. Sempre parei para imaginar se eu preferi me isolar de contato humano pra me privar de me decepcionar com os outros ou comigo mesmo... Um pouco dos dois suponho eu. Quando eu acho que estou estável algo acontece e me desestabiliza por completo. Sou uma piada ambulante.

   Eu tentei escrever sobre esse sentimento de me sentir isolado por dois anos, vários rascunhos, mas nada nunca saiu. "Nutshell" eu chamava. Fazia desenhos retratando uma mulher sentada no chão abraçada nos próprios joelhos para conseguir passar a ideia de angústia, mas nada passava pro papel. Alguns escritores chamam de bloqueio de criatividade... outros chamam de hesitação. Um tempo necessário que uma ideia leva para "cozinhar" e ficar madura para ser passada para o papel e ter uma conclusão bonita e um fechamento que te agrade.

    Heloísa Seixas uma vez escreveu um texto sobre ostras que ficou mais ou menos assim;
"Há, no seio de uma ostra, um movimento - ainda que imperceptível. Qualquer coisa imiscuiu-se pela fissura, uma partícula qualquer, diminuta e invisível. Venceu as paredes lacradas, que se fecham como a boca que tem medo de deixar escapar um segredo. Venceu. E agora penetra o núcleo da ostra, contraminando-lhe a própria substância. A ostra reage, imediatamente. E começa a secretar o náctar. É um mecanismo de defesa, uma tentativa de purificação contra a partícula invasora. Com uma paciência de fundo de mar, a ostra profana continua seu trabalho incansável, secretando por anos a fio o nácar que aos poucos se vai solidificando. É dessa solidificação que nascem as pérolas. As pérolas são, assim, o resultado de uma contaminação. A arte por vezes também. A arte é quase sempre transformação da dor"
 Eu chamava de bloqueio... hoje chamo de hesitação. Estou pronto.
   Havia alguns dias em que eu acordava de mau humor e resmungava da criança que estava brincando no ônibus a caminho da faculdade, achava idiota o pré adolescente que estava fazendo palhaçadas pra impressionar a amiga, ficava com olhar de desaprovação para o garoto que fingia se encaixar em um esteriótipo para se sentir bem na sociedade e eu também me sentia sem paciência quando um velhinho andava devagar na minha frente na calçada. Eu olhava para todos eles como se eu fosse um alienígena de outro planeta e eu fosse completamente diferente deles e eu fosse um ser superior e isolado.

   Depois de muito tempo, eu percebi que eu já fui a criança que brincava no ônibus, eu fui o pré adolescente que fazia palhaçadas pra impressionar a amiga, eu fui o garoto que se encaixava no estereótipo pra se sentir bem e eu ia me tornar o senhor na calçada. A minha visão sobre eles começou a mudar aos poucos e ficou menos maldosa e mais carinhosa. O "pré adolescente idiota" que fazia palhaçada pra amiga eu já via ele como um menino que gosta da menina e se sente bem fazendo isso, da mesma maneira que um dia eu já me senti. O tempo passado com os outros é terapêutico. O próprio ato de ficar sozinho aumenta a sensação de isolamento. Ou seja, quanto mais eu me isolava, mais eu me sentia isolado. E isso gerava um ciclo infinito que ia aumentando e fazendo com que eu me sentisse cada vez mais e mais isolado. O quanto mais eu me via fora da sociedade, mais eu realmente me isolava da mesma. O meu pensamento em relação aos outros refletia diretamente a como eu me sentia. Eu precisava me sentir fazendo parte deles. Precisava me sentir integrado.

   Eu hoje percebo que esse meu bloqueio não era algo ruim, mas sim tempo pra minha cabeça amadurecer a ponto de eu entender que eu estava me auto-sabotando. Auto-sabotagem é difícil de se reconhecer. Toda aquela sensação de isolamento nada mais era do que angústia e minha mente me dizendo que eu precisava mudar os meus costumes. Eu interpretei tudo errado. Sangue foi derramado a toa. Desculpa por ser tão distante, espero um dia conseguir voltar a andar a terra com vocês. Espero que vocês não estejam tão solitários sem mim. Sinto falta de vocês. Eu não sei se vale a pena voltar
De: Ian
Para: Humanidade

Metade desse texto eu escrevi um ano atrás e deixei nos rascunhos pois não sabia como prosseguir. A mudança de postura em relação a solidão deve ser perceptível. Não sei se é engraçado ou triste a permanência da solidão.


                                     Felicidade só é real quando compartilhada 

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