Definir É Limitar?
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| Ehsan Mehrbakhsh |
É muito estranho falar sobre esse assunto e colocar pra fora esse tipo de pensamento, chega a deixar um nervoso batendo aqui dentro porque eu não sei o que sentir ou o que pensar.
De uns meses pra cá eu venho falado uma frase de efeito que é muito forte, mas eu sempre usava como "meme".
Definir é limitar. Eu usava em momentos fora de contexto e completamente aleatórios. Como por exemplo, um amigo me perguntava qual era a banda que eu estava ouvindo e eu simplesmente ria e falava "definir e limitar". Depois de muito tempo falando isso, eu comecei a aplicar em quase tudo do meu dia a dia, incluindo no sentido correto da frase. Sempre entendi e concordei que rotular as coisas acabava prejudicando o "ser" dela, e assim entendi as coisas um pouquinho melhor.
Indo direto ao assunto. Esse texto é sobre sexualidade e como nos definir e nos rotular antes de nos conhecermos pode (e vai) afetar a nossa maneira de ver as coisas. Sabe quando falam para uma pessoa "é muito cedo para você decidir isso" em relação a sexualidade dela? Então, só falam isso pra quem se destaca do "tradicional". Nunca que um pai vai falar ao filho que é cedo pra ele decidir ser hétero, nunca.
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| Ehsan Mehrbakhsh |
Se é cedo ou não pra pessoa conhecer a si mesmo sexualmente, varia dela e só ela quem sabe quando é hora de amadurecer. Eu acredito que todas as pessoas tem um lado "masculino" e "feminino" (pular para OBS 1 caso queira ver um comentário sobre esse termo) mesmo eu não considerando coisas femininas ou masculinas, apenas culturalmente. No momento que definimos que o homem não deve fazer tal coisa como cozinhar pois é "tarefa de mulher" (bleh) e definimos que mulher não deve entender de mecânica pois é "tarefa de homem"(bleh), acabamos limitando o interesse deles e a habilidade deles no mundo. Ele poderia se tornar um dos melhores cozinheiros e ela uma das melhores mecânicas. Essa limitação não permanece apenas nesse sentido, considerando o sentido real, esse é considerado muito superficial inclusive. Nunca iremos saber se gostamos apenas do sexo feminino ou apenas do sexo masculino ou ambos porque existem milhares de possibilidades entre esses polos não necessariamente opostos. Inclusive você pode passar a vida toda apresentando comportamento hétero mas sentir atração homossexual por apenas uma pessoa em específico. O seu corpo é assim, o seu cérebro é assim, você é assim. Acredito firmemente que todos os 7,459,528,439 indivíduos desse mundo sejam completamente diferentes em questão de personalidade e especialmente em questão de sexualidade.
Quando nascemos e somos estimulados desde pequenos de que devemos gostar do sexo oposto, acabamos nós mesmos nos definindo como "hétero" e como já sabemos, definir é limitar. Durante a nossa infância, nós (nossos pais e consequentemente nós mesmos) colocamos na nossa cabeça que não podemos gostar do mesmo sexo, nem achar bonito (agradecimentos à masculinidade frágil).
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| Ehsan Mehrbakhsh |
Com isso desenvolvemos algo que não é comum na natureza, o repúdio e o "nojo". O natural, caso hétero, seria sentirmos atração pelo sexo oposto e simplesmente não sentir pelo mesmo sexo. Porém com essa nossa educação (lavagem cerebral) o que acontece? Sentimos atração pelo sexo oposto e sentimos repúdio do mesmo sexo. Qualquer criança/adolescente que se é apresentada de beijar um amiguinho do mesmo sexo, qual a reação? "bleh" "que nojo" "ecaaa" quando o natural deveria ser apenas um "não sinto vontade" (obviamente abordando as pessoas que ainda apresentam um certo bloqueio). No mesmo caso em que nós evitamos olhar pro corpo do mesmo sexo, se um amigo ou uma amiga vão trocar de roupa, você vira o rosto ou sai do quarto (na maioria dos casos). Se não tivéssemos interesse, olhar não seria problema nenhum. Mas a sociedade trabalha para evitar qualquer contato ou possibilidade de existir interesse. Logo, mesmo nós "não sentindo atração" acabamos sendo criados com o costume de não olhar pro amiguinho pelado porque é "gay". No final não faz sentido algum.
O fato de nos definirmos héteros desde criança acaba tirando a nossa possibilidade de auto conhecimento e descoberta para sabermos o que nós realmente somos. Nos impõem o rótulo de hétero antes mesmo de sabermos o que é sexo, o que é atração, o que é um simples beijo na boca. Após eu começar a pensar dessa maneira a primeira coisa que eu pensei foi o que? Parar de me definir ou rotular. Me dar a liberdade de ser quem eu sou independente do que padronizaram. Antes de você ser homem ou mulher, gostar do sexo oposto, do sexo igual, dos dois, de nenhum dos dois... você é você, antes de qualquer coisa.
Eu acredito que "definir é limitar" é algo tão real que até a matemática pode ter tida como exemplo (para ver o exemplo matemático pular para OBS 2) Antes de qualquer coisa, somos nós. Todos somos infinitamente únicos, é tudo tão complicado pra se "rotular" que é mais simples e verdadeiro se rotular como você.
"Qual sua sexualidade??" "então, meu nome é Ian, prazer" porque afinal definir é se limitar, e eu nunca vou saber se eu sou dessa maneira que eu sou ou apenas sigo a construção natural que me foi imposta.
Edit 1: Esse texto foi publicado em 2016 e agora, 3 anos depois, ressalto a seguinte reflexão;
Um fator importante é que essa fase de não se rotular serve apenas para se redescobrir. Talvez alguns anos sem se definir seja melhor para você se conhecer melhor, mas para encontrar um rótulo que tenha menos influência do padrão imposto na sua criação. Porém, dou ênfase de que é essencial, em uma sociedade como a nossa, conseguirmos entender quem somos e quais direitos nos são negados.
Por um lado, não se definir é libertador, entretanto a ausência de identificação política pode enfraquecer o grupo do qual você faz/faria parte. Se você se sente próximo de algum rótulo que não seja o heteronormativo, é importante ter ciência de que você precisa lutar pelo seu direito de ser diferente, ou seja, pelo seu direito de ser você mesmo. Percebi que nunca me considerei incluso dentro do grupo LGBT+ pois eu ignorava completamente minha sexualidade e vejo o quanto isso pode ferir o movimento, a mim mesmo e os meus amigos.
Conclusão; se preferir, tire um tempo sem se rotular para poder encontrar um rótulo no qual você se identifique mais. Defendo um mundo sem rótulos e definições, mas em um momento de luta é importante a organização contra a cultura agressiva que nos cerca.
OBS 1:
Quando digo lado "feminino" e "masculino" é baseado em uma teoria de Psicanálise de Carl Jung que defende que temos arquétipos, masculinos e femininos. Essa teoria defende que são lados diferentes, mas eu acredito que seja um conceito diferente do que eu acredito e que não existem coisas "masculinas" e "femininas" e ele acreditava nisso devido o pensamento da época.
Defendo que temos esses lados independente de gênero, mas a sociedade reprime o oposto ao nosso sexo biológico, por exemplo, eu como homem; meu lado que é considerado como arquétipo feminino foi reprimido com objetivo de ressaltar o lado masculino (sejamos realistas NÃO DEU MUITO CERTO EM MIM).
OBS 2:
Vamos supor que a matemática separa as sexualidade em 2 grupos, de 1 até 100 e 100 até 200. Existem dois grupos, mas existem infinitas possibilidades, uma pessoa que vale 32 não deveria ser enquadrada da mesma forma que uma 62,5... são do mesmo grupo? sim, mas não são iguais e nem se comportam da mesma maneira. Existem LITERALMENTE e MATEMATICAMENTE infinitas possibilidades de indivíduos particularmente únicos dentro desse intervalo.
-Para quem gostou do assunto e quiser se aprofundar um pouco mais no assunto eu recomendo um filme chamado "Kinsey - Vamos Falar de Sexo (2004)"





Sim!
ResponderExcluirEu lembro que minha primeira experiência com questionar essa imposição aconteceu de um jeito bem doentio (o menininho que conversava comigo na internet no fim das contas era uma menina), mas mesmo assim eu sempre fui grata porque a experiência me ajudar a entender bem mais minha relação com as possibilidades.
Sensacional!
ResponderExcluirJá começou errado
ResponderExcluirQue texto foda, extremamente foda.
ResponderExcluirCara, escrevi um texto que segue mais ou menos a mesma linha de pensamento que o seu. Dá uma olhada lá quando puder. Adorei você e seu blog. Cheguei aqui porque te sigo no twitter e pretendo voltar mais vezes
ResponderExcluirLink p/ o meu texto >>>> http://esbocosintelectuais.blogspot.com.br/2016/12/reflexao-acerca-da-sexualidade-humana.html
Ah, já tinha visto esse filme (Kinsey - Vamos Falar de Sexo) de madrugada no Corujão. Nunca descobri o nome. Vlw aí.
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